Wednesday, November 30, 2005

Jornalismo no divã

E agora é hora de escrever, é hora de entregar-se à missão acreditada, é hora do concreto. Lidar com o concreto implica aceitar a independência que se impõe à força, mais concreta que o próprio corpo. O corpo é também subordinado à independência. Mas há a prisão. O corpo, que é concreto, que é também o concreto em si, o corpo também prende. Quando é percebida concretizada, a independência se transforma num cativeiro. E assim o coração vagabundo avança, como se tivesse que avançar. Mas o ter que avançar é apenas acreditado e imposto ao coração. O coração vagabundo é o mais despreparado e o único que pode tomar conta. O coração vagabundo está sempre sobrecarregado com a canseira de ter esperança. É ele que mantém acordado e dormido o homem. A missão do coração vagabundo não é apenas acreditada, é uma missão que o que a faz concreta é ser simplesmente também física, no sentido de imposição de lei da Física.

E estou tecendo um grande enredo, não se enganem, isso não tem nada de simples divagação. Isto que escrevo tem personagens, cenário, tempo e espaço. A História se impõe a tudo, e mais: a História é intrínseca a tudo. Por isso a gente também às vezes baixa a cabeça e vira jornalista. Por isso é tão importante olhar para baixo e pensar sobre as correntes que nos prendem os pés à terra (as sombras na parede, etc.), porque pensar sobre elas é pensar sobre o que se pode fazer para libertar-se para olhar para cima. As linhas do jornalismo são tão pretensiosas! Querem que se possa jurar que só olham para as correntes. E se pretendem magnânimas: querem tomar conta, querem ser levadas muito a sério pelas provas que colhem e oferecem e sua ambição declarada e nem sempre sincera é ser responsável pela libertação de cada indivíduo de suas correntes individuais. E já me entra uma vontade de me distrair, porque estou sendo muito sério, estou me esforçando para tratar seriamente da coisa sobre a qual escrevo, que é seríssima, quase tão séria quanto a abstração.

Distrair-se é andar faceiro arrastando as correntes, como se elas não existissem. E como se também não existisse o céu: distrair-se é não olhar para baixo nem para cima: é olhar para a frente, é deixar correr o rio - e se pode fazê-lo olhando para baixo ou olhando para cima. Pode-se olhar para a frente olhando para baixo ou olhando para cima, mas vice-versa já não. Olhar para a frente pode ser feito com missão ou sem missão (conheço um pouco os meus outros), acreditando ou sem acreditar - só uma coisa tão séria quanto olhar para a frente é capaz de dar conta de todas as possibilidades. E não há nenhuma intenção de metáfora aqui: estou falando em olhar para a frente como se olha aimediatez do próprio reflexo no espelho, e nunca esse meu dizer "olhar para a frente" tem alguma coisa a ver com futuro ou com meta. Conheço uma outra palavra para dizer futuro: projeção. E olhar para a frente não tem nada, mas nada - envergonhe-se por favor quem tenha pensado o contrário -, olhar para a frente não tem nada a ver com futuro nem com meta.

Percebo que estou me distraindo, distraindo olhando para cima, e subitamente algo me pediu para que olhar para baixo também pudesse ser aceito por mim como uma distração. O que me leva a pensar que nunca pensei em ser jornalista por distração. Distração, num ofício, é fazer o que se gosta. E se é certo que somos impelidos a fazer sempre o que nos dá prazer e fugir da dor, então é também verdade que sou um apaixonado do jornalismo. (Às vezes nem eu me entendo, quando se está distraído é difícil entender as coisas). Tão apaixonado e compreensivo com o jornalismo que até consigo estabelecê-lo com o que ele faz questão de sempre negar - o jornalismo, esse tão personagem, esse tão sujeito ao próprio inconsciente como qualquer existência que é concebida, quando idealizada, por nós, os incutidores da História nas coisas: estabeleço o jornalismo a partir da parcialidade que ele faz questão de conscientemente negar (ah, mas ele estudou teatro, não sou tão bobo assim como pareço); parcialidade no sentido das suas duas metades. As duas metades de que ele é composto e a metade daquilo que ele é uma das metades (i.g.: em cima e embaixo são metades, etc.). E assim em pares que vão formando coisas tão únicas e sólidas como olhar para a frente, simplesmente.

Monday, November 28, 2005

São Valentim, est. 2002

Ai de mim, que sou assim. Que vejo o fim assim. Porque fim não há, mas fins. Um leque deles, uns que nem percebo e uns que choro... Fim: nada e tudo a ver com finalidade. Desde que vim é assim. E como escolhê-los, e como apressá-los, e como abreviá-los? Não sei. Mas sei que estão por aí e por aqui: do meu lado e do teu: muitos fins por toda parte. Mesmo por todo tempo nosso. Há de haver um rosto ou um gesto sem fim. Que possa, talvez em uma menina que fala francês, talvez no grande amor da minha vida, persistir e durar. Tudo que é. Assim pode mudar. Sim. Mas a menina tem pai e o grande amor da minha vida um olhar só seu, um jeito que, por mais que eu venha a entender ou tentar, será sempre só seu. Até um fim qualquer, um desses tantos. Nunca até O fim, que não existe. Mas eu existo para sempre enquanto meus fins forem múltiplos: um emaranhado de fins que posso pensar se culminam, mas nem sempre vale a pena. Vivo-me.

Assim.

Wednesday, November 23, 2005

O escritor medroso (Haroldo e Calvin)

O medo vinha de sentir que não tinha a própria atividade sob controle.

(Mas nem sobre a palavra medo ele tem controle, ele que atua com palavras e por isso o medo: as palavras nunca são controláveis porque são umas vagabundas, vão com quem as lê, e obedecem: ou se arregaçam ou calam, com medo. Quem lê manda muito mais do que quem escreve)

A vontade de ter controle paralisava qualquer ação e a atividade escapava, rindo dele. Ele como uma pessoa dormindo que está sonhando e sabe que está sonhando. E quer acordar e não pode. O sonho tem mais controle. O sonho é o palco do que o controle não deixa sair. O medo vinha de sentir que não tinha a própria atividade sob controle.

(Mas quem lê sonha tanto quanto quem escreve. O que diferencia é o controle. Quem lê controla mais, quem lê é mais ativo. Não é? Quem escreve não está tentando controlar, quem escreve está apenas com medo. Será? Escreve quem sonha ou sonha quem lê? Qualquer interrogação é uma trégua. Escrevo, lês. Controle, medo. Uma putaria!)

Sua própria atividade era sonho, ele precisava não querer acordar. Para não ter medo. O despertar dele era o sono da cidade. Ele não queria dormir com a cidade, ele só podia acordar sozinho. Era parte da atividade. A atividade que ele não tem sob controle — daí vem o medo. Se ele soubesse medo de quê que ele tinha, se ele não estivesse apenas sonhando, e em sonho não se sabe, se sente, ele sente medo sem saber de quê: ele só sente que não tem sob controle a atividade.

(Solidão não é palavra. Não chamemos solidão de vagabunda que ela pode vir correndo deitar conosco. Solidão é extremamente acessível. Para não dizer intrínseca? Trégua)

Mas ele está se encontrando: é exatamente essa a atividade. E não se tem controle sobre encontrar-se. Ele acaba de abrir mão do controle e a atividade começa a fluir, sem ele saber. Ele está sentindo isso. Uma coisa que ele agora sabe: medo de quê que ele tinha. Medo de, sem a atividade sob controle, não poder sonhar o seu próprio sonho e ter que dormir com a cidade.

(A cidade em si é feita de palavras: televisão, bancas de jornais, jornais, televisão, publicidade, revistas, jornais, shopping centers, carros, contas, prédios, documentos, chaves de casa, outdoors, televisão, internet, banheiro feminino, banheiro masculino, informação, informação, informação, propaganda, semáforo, televisão — e algumas poucas outras mais, que também se repetem. A cidade é uma festa de vagabundas que se dão alto valor, vagabundas brasileiras e estrangeiras [as estrangeiras estão tomando conta da festa!]. Mas tem mais controle quem lê, então quem dá valor às vagabundas palavras de que é feita a cidade são os vivos-próprios, os concretos, os seres humanos, os autônomos. Que prezam tanto o controle, apenas lendo e refestelando-se nas vagabundas. As estrangeiras cobram cada vez mais caro, as estrangeiras ainda por cima cobram em dólares)

Não, ele vai ter que reconhecer o medo de outra forma ainda: medo de não poder oferecer um sonho seu à cidade. Ele, em relação à cidade, quer sair de dentro de si, sem dormir com ela. O sono da cidade é outro, a cidade sonha diferente, sonha concreto, com tijolos e carros. A cidade tem muito controle sobre as próprias atividades. Ele não dorme com a cidade, ele precisa perder o medo de não ter a própria atividade sob controle. Só assim poderá continuar sem ter controle sobre o sonho: controle sobre o sonho é dormir o sono da cidade. Controle sobre o sonho é analisar. Ele se sente tentado a analisar — mas quando ele analisa, a atividade naufraga.

(Não sei se estamos falando da mesma coisa. A cidade sonha ou solidão para respirar? Trégua. Sonhar como respirar? Trégua. Nem todas as palavras são palavras. Nada contra as vagabundas. O poder é de quem lê? Trégua)

Ele agora está aproveitando inclusive o medo para sonhar. Depois do encontrar-se, ele continuou perdido (sem qualquer tipo de controle), e a atividade se transformou então no que nunca tinha deixado de ser: nele.

(E há quem prefira escrever. Ver? Trégua. Quem acha que vê prefere a paz. E viva a euforia do medo, ainda que cada parênteses tenha sido um naufrágio)

Thursday, November 17, 2005

O que vejo e em que acredito

Sob encomenda da Tia Dê, a quem dedico todo o iceberg.



Acredito que acreditar é uma idéia e vejo coisas que posso pegar. Acredito que o ser humano é um veículo, embora veja que ele é apenas uma condição. Não vejo a idéia que tenho do infinito, mas sou um veículo dela. Entre ver e acreditar, imagino.

Ver e acreditar às vezes me parecem egoístas, porque são só meus. O que imagino posso dar, e quero. Querer é mais do que dar, porque nem sempre se pode dar mas sempre se pode querer. Querer é mais do que agradecer, porque nem sempre se recebe. Minha idéia de agradecer defino como fé. A mim me foi dado ter fé, e agradeço. Mas também vejo que a conquisto, e apenas vejo.

Imagino o que chamam de Deus, que é tão só meu. Imagino Deus para poder dá-Lo. E vejo. Vejo que a pessoa — e, mais ainda, que a coisa (porque a pessoa é uma coisa quando vista) — vejo que a pessoa é uma condição. Mas dou minha pessoa ao mundo como veículo, porque a pessoa e a coisa podem não ser só vistas, mas acreditadas. E então agradeço: fé. E então veiculo. Deus é que nunca me deixa esquecer da condição.

Só acredito no amor porque o vejo — mas como, se acreditar é uma idéia?! Como posso ver o amor? É que está faltando um verbo, aquele que define a atividade dos meus outros olhos. Um dos verbos mais importantes e por isso tão importante quanto todos os outros. Eu também sinto. Foi com os olhos do verbo sentir que vi o amor e pude pegá-lo como se o tivesse visto com meus olhos normais. O que dá na mesma, porque ver é sempre ver.

Não, eu não acredito só no que vejo. E não, eu não acredito só no que sinto. Quero muito poder estar sempre errado, para que uma coisa nunca me abandone: a liberdade. Quero (embora saiba que não agüentaria receber tudo o que quero: sou veículo e condição apenas), quero nunca estar preso à irmã gêmea e maior rival da imaginação. A irmã gêmea da imaginação é a ilusão. Elas só são rivais porque uma é uma criança brincalhona e a outra é uma velha rabugenta. Mas então como são gêmeas?! Queria (no imperfeito porque já sei, embora continue querendo), queria não ter sabido que o que é gêmeo e rival a respeito da imaginação e da ilusão são os papéis que alternam na sua existência única, complementar e espiralesca, ao longo de suas idades que podem ser vistas: quando a velha rabugenta morre, renasce imediatamente a criança, que cresce até virar uma velha rabugenta que morre de novo e de novo nasce brincalhona para envelhecer... E veiculo também assim minha idéia do infinito, sem deixar de ver. Sem deixar de querer.

Acreditar é uma idéia: acredito na imaginação. Vejo coisas que posso pegar: sim, a ilusão é concreta. E chega justo agora aquela severa governanta que se encarrega de deixar tudo sempre em ordem, mesmo contra a nossa vontade — vontade é sempre instantânea —, a governanta que no fundo está apenas zelando por nós no decorrer do nosso longo prazo condicionado, que é tão curto mas nunca apenas instantâneo. A governanta de quem eu estava tentando escapar de mãos dadas com a criança, eu que adoro imaginar: a governanta chega com seu espanador e sua mania de ordem. Ela se chama dor: ver a ilusão dói.

Tudo o que eu posso pegar é uma ilusão, é tão velho e rabugento quanto ela. E dói porque também posso pegar as pessoas, essas tão coisas que incontestavelmente vejo mas que me recuso a aceitar que sejam apenas uma condição a ser vista e analisada. Para mim são também veículo de amor e dor, eu que também acredito, eu que também tenho idéias. Apenas por isso quero tanto não ser analisado pelo que digo. Porque acredito tanto, mas tanto na visão da análise, que uma entrega a ela me despertaria pavor por apenas acreditar em mim: eu não seria mais visto, eu não seria mais pegável. Preciso me ver, preciso que me peguem. Meu corpo que se vê, a coisa que eu existo, é velho e rabugento como a história da matéria, porque ele é toda a matéria já cansada de ser velha como a morte e a vida que veicula e condiciona. Alguém se deu conta do meu trunfo? A história que contei sobre a matéria é uma ilusão imaginada, criança e velha ao mesmo tempo. Meu trunfo é fome: quero as duas para mim, prato e sobremesa. E sempre vice-versa.

Eu sou metafórico, eu sou metafísico, eu sou metalingüístico, eu nasci para ser além. Mas não acredito só em meta, porque vejo a sabedoria do oráculo. Minha humildade diante dessa ambição é tão grande que quero, por favor!, estar redondamente enganado. Minha maior fé é no erro, porque ele é que me permite continuar imaginando nos momentos em que não sou reivindicado pela ilusão (falar é uma ilusão, e estou falando). Acreditar no meu Deus é constantemente imaginá-Lo, é desafiar as provas que Ele me deixa ver Dele mesmo, porque se eu apenas O tivesse visto, Ele seria apenas velho e rabugento, Ele seria uma ilusão. Mas Ele se me deixa imaginá-Lo também, em cada criança que me aparece.

A condição é ser criança e velho ao mesmo tempo, porque cada vida humana é um tempo só, um corpo só, um só Vinicius. O veículo é para poder dizer tudo isso, dizer tudo isso é amar, amar é ver com os olhos do sentir, os olhos do sentir são para acreditar também no que não se vê, acreditar é uma idéia, idéia é o sobrenome da família a que pertencem a imaginação e a ilusão, que em mim brigam por Deus, que transcende crença e idéia porque também deixa que eu O veja, velho e rabugento. E que me abençoa querendo que eu possa sempre estar errado.

Sou condição e veículo: eu acredito e vejo: eu às vezes pareço tão egoísta. Meu altruísmo é querê-Lo.