Jornalismo no divã
| E agora é hora de escrever, é hora de entregar-se à missão acreditada, é hora do concreto. Lidar com o concreto implica aceitar a independência que se impõe à força, mais concreta que o próprio corpo. O corpo é também subordinado à independência. Mas há a prisão. O corpo, que é concreto, que é também o concreto em si, o corpo também prende. Quando é percebida concretizada, a independência se transforma num cativeiro. E assim o coração vagabundo avança, como se tivesse que avançar. Mas o ter que avançar é apenas acreditado e imposto ao coração. O coração vagabundo é o mais despreparado e o único que pode tomar conta. O coração vagabundo está sempre sobrecarregado com a canseira de ter esperança. É ele que mantém acordado e dormido o homem. A missão do coração vagabundo não é apenas acreditada, é uma missão que o que a faz concreta é ser simplesmente também física, no sentido de imposição de lei da Física. E estou tecendo um grande enredo, não se enganem, isso não tem nada de simples divagação. Isto que escrevo tem personagens, cenário, tempo e espaço. A História se impõe a tudo, e mais: a História é intrínseca a tudo. Por isso a gente também às vezes baixa a cabeça e vira jornalista. Por isso é tão importante olhar para baixo e pensar sobre as correntes que nos prendem os pés à terra (as sombras na parede, etc.), porque pensar sobre elas é pensar sobre o que se pode fazer para libertar-se para olhar para cima. As linhas do jornalismo são tão pretensiosas! Querem que se possa jurar que só olham para as correntes. E se pretendem magnânimas: querem tomar conta, querem ser levadas muito a sério pelas provas que colhem e oferecem e sua ambição declarada e nem sempre sincera é ser responsável pela libertação de cada indivíduo de suas correntes individuais. E já me entra uma vontade de me distrair, porque estou sendo muito sério, estou me esforçando para tratar seriamente da coisa sobre a qual escrevo, que é seríssima, quase tão séria quanto a abstração. Distrair-se é andar faceiro arrastando as correntes, como se elas não existissem. E como se também não existisse o céu: distrair-se é não olhar para baixo nem para cima: é olhar para a frente, é deixar correr o rio - e se pode fazê-lo olhando para baixo ou olhando para cima. Pode-se olhar para a frente olhando para baixo ou olhando para cima, mas vice-versa já não. Olhar para a frente pode ser feito com missão ou sem missão (conheço um pouco os meus outros), acreditando ou sem acreditar - só uma coisa tão séria quanto olhar para a frente é capaz de dar conta de todas as possibilidades. E não há nenhuma intenção de metáfora aqui: estou falando em olhar para a frente como se olha aimediatez do próprio reflexo no espelho, e nunca esse meu dizer "olhar para a frente" tem alguma coisa a ver com futuro ou com meta. Conheço uma outra palavra para dizer futuro: projeção. E olhar para a frente não tem nada, mas nada - envergonhe-se por favor quem tenha pensado o contrário -, olhar para a frente não tem nada a ver com futuro nem com meta. Percebo que estou me distraindo, distraindo olhando para cima, e subitamente algo me pediu para que olhar para baixo também pudesse ser aceito por mim como uma distração. O que me leva a pensar que nunca pensei em ser jornalista por distração. Distração, num ofício, é fazer o que se gosta. E se é certo que somos impelidos a fazer sempre o que nos dá prazer e fugir da dor, então é também verdade que sou um apaixonado do jornalismo. (Às vezes nem eu me entendo, quando se está distraído é difícil entender as coisas). Tão apaixonado e compreensivo com o jornalismo que até consigo estabelecê-lo com o que ele faz questão de sempre negar - o jornalismo, esse tão personagem, esse tão sujeito ao próprio inconsciente como qualquer existência que é concebida, quando idealizada, por nós, os incutidores da História nas coisas: estabeleço o jornalismo a partir da parcialidade que ele faz questão de conscientemente negar (ah, mas ele estudou teatro, não sou tão bobo assim como pareço); parcialidade no sentido das suas duas metades. As duas metades de que ele é composto e a metade daquilo que ele é uma das metades (i.g.: em cima e embaixo são metades, etc.). E assim em pares que vão formando coisas tão únicas e sólidas como olhar para a frente, simplesmente. |


2 Comments:
Maravilhoso o blog. Maduro, experimental, amei mesmo. Textos bons, sempre, SEMPRE comentarei qualquer bobagem, ao menos para vc notar que eu estou acompanhando a trajetória intelectual...
DICA: altera tuas configurações para permitir comentários de qualquer pessoa, assim quem não tem blog no blogspot também pode postar!
Abraço.
Imparcialidade...se um dia ela existir, não haverá mais sr humano. Liberdade, só se houver aprisionamento do outro?
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