O que vejo e em que acredito
Sob encomenda da Tia Dê, a quem dedico todo o iceberg.
Acredito que acreditar é uma idéia e vejo coisas que posso pegar. Acredito que o ser humano é um veículo, embora veja que ele é apenas uma condição. Não vejo a idéia que tenho do infinito, mas sou um veículo dela. Entre ver e acreditar, imagino.
Acredito que acreditar é uma idéia e vejo coisas que posso pegar. Acredito que o ser humano é um veículo, embora veja que ele é apenas uma condição. Não vejo a idéia que tenho do infinito, mas sou um veículo dela. Entre ver e acreditar, imagino.
Ver e acreditar às vezes me parecem egoístas, porque são só meus. O que imagino posso dar, e quero. Querer é mais do que dar, porque nem sempre se pode dar mas sempre se pode querer. Querer é mais do que agradecer, porque nem sempre se recebe. Minha idéia de agradecer defino como fé. A mim me foi dado ter fé, e agradeço. Mas também vejo que a conquisto, e apenas vejo.
Imagino o que chamam de Deus, que é tão só meu. Imagino Deus para poder dá-Lo. E vejo. Vejo que a pessoa — e, mais ainda, que a coisa (porque a pessoa é uma coisa quando vista) — vejo que a pessoa é uma condição. Mas dou minha pessoa ao mundo como veículo, porque a pessoa e a coisa podem não ser só vistas, mas acreditadas. E então agradeço: fé. E então veiculo. Deus é que nunca me deixa esquecer da condição.
Só acredito no amor porque o vejo — mas como, se acreditar é uma idéia?! Como posso ver o amor? É que está faltando um verbo, aquele que define a atividade dos meus outros olhos. Um dos verbos mais importantes e por isso tão importante quanto todos os outros. Eu também sinto. Foi com os olhos do verbo sentir que vi o amor e pude pegá-lo como se o tivesse visto com meus olhos normais. O que dá na mesma, porque ver é sempre ver.
Não, eu não acredito só no que vejo. E não, eu não acredito só no que sinto. Quero muito poder estar sempre errado, para que uma coisa nunca me abandone: a liberdade. Quero (embora saiba que não agüentaria receber tudo o que quero: sou veículo e condição apenas), quero nunca estar preso à irmã gêmea e maior rival da imaginação. A irmã gêmea da imaginação é a ilusão. Elas só são rivais porque uma é uma criança brincalhona e a outra é uma velha rabugenta. Mas então como são gêmeas?! Queria (no imperfeito porque já sei, embora continue querendo), queria não ter sabido que o que é gêmeo e rival a respeito da imaginação e da ilusão são os papéis que alternam na sua existência única, complementar e espiralesca, ao longo de suas idades que podem ser vistas: quando a velha rabugenta morre, renasce imediatamente a criança, que cresce até virar uma velha rabugenta que morre de novo e de novo nasce brincalhona para envelhecer... E veiculo também assim minha idéia do infinito, sem deixar de ver. Sem deixar de querer.
Acreditar é uma idéia: acredito na imaginação. Vejo coisas que posso pegar: sim, a ilusão é concreta. E chega justo agora aquela severa governanta que se encarrega de deixar tudo sempre em ordem, mesmo contra a nossa vontade — vontade é sempre instantânea —, a governanta que no fundo está apenas zelando por nós no decorrer do nosso longo prazo condicionado, que é tão curto mas nunca apenas instantâneo. A governanta de quem eu estava tentando escapar de mãos dadas com a criança, eu que adoro imaginar: a governanta chega com seu espanador e sua mania de ordem. Ela se chama dor: ver a ilusão dói.
Tudo o que eu posso pegar é uma ilusão, é tão velho e rabugento quanto ela. E dói porque também posso pegar as pessoas, essas tão coisas que incontestavelmente vejo mas que me recuso a aceitar que sejam apenas uma condição a ser vista e analisada. Para mim são também veículo de amor e dor, eu que também acredito, eu que também tenho idéias. Apenas por isso quero tanto não ser analisado pelo que digo. Porque acredito tanto, mas tanto na visão da análise, que uma entrega a ela me despertaria pavor por apenas acreditar em mim: eu não seria mais visto, eu não seria mais pegável. Preciso me ver, preciso que me peguem. Meu corpo que se vê, a coisa que eu existo, é velho e rabugento como a história da matéria, porque ele é toda a matéria já cansada de ser velha como a morte e a vida que veicula e condiciona. Alguém se deu conta do meu trunfo? A história que contei sobre a matéria é uma ilusão imaginada, criança e velha ao mesmo tempo. Meu trunfo é fome: quero as duas para mim, prato e sobremesa. E sempre vice-versa.
Eu sou metafórico, eu sou metafísico, eu sou metalingüístico, eu nasci para ser além. Mas não acredito só em meta, porque vejo a sabedoria do oráculo. Minha humildade diante dessa ambição é tão grande que quero, por favor!, estar redondamente enganado. Minha maior fé é no erro, porque ele é que me permite continuar imaginando nos momentos em que não sou reivindicado pela ilusão (falar é uma ilusão, e estou falando). Acreditar no meu Deus é constantemente imaginá-Lo, é desafiar as provas que Ele me deixa ver Dele mesmo, porque se eu apenas O tivesse visto, Ele seria apenas velho e rabugento, Ele seria uma ilusão. Mas Ele se me deixa imaginá-Lo também, em cada criança que me aparece.
A condição é ser criança e velho ao mesmo tempo, porque cada vida humana é um tempo só, um corpo só, um só Vinicius. O veículo é para poder dizer tudo isso, dizer tudo isso é amar, amar é ver com os olhos do sentir, os olhos do sentir são para acreditar também no que não se vê, acreditar é uma idéia, idéia é o sobrenome da família a que pertencem a imaginação e a ilusão, que em mim brigam por Deus, que transcende crença e idéia porque também deixa que eu O veja, velho e rabugento. E que me abençoa querendo que eu possa sempre estar errado.
Sou condição e veículo: eu acredito e vejo: eu às vezes pareço tão egoísta. Meu altruísmo é querê-Lo.


1 Comments:
Mas que texto mais lindo, Mano!!! LINDO, LINDO, LINDO... Acredito que este tipo de texto vai nos parecer sempre (e PRA SEMPRE) límpido e esclarecedor, independentemente do quanto a gente evolua ou do quanto nos mantivermos fiéis a nós mesmos. É um texto "sentido" e o sentimento, quando é verdadeiro ou verdadeiramente sentido, é atemporal. Meu corpo é veículo para expressar o amor que a criança brincalhona e a velha rabugenta (imaginação e ilusão) que moram em ti despertam em mim. TE AMO MUITO! Lali.
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