Wednesday, November 23, 2005

O escritor medroso (Haroldo e Calvin)

O medo vinha de sentir que não tinha a própria atividade sob controle.

(Mas nem sobre a palavra medo ele tem controle, ele que atua com palavras e por isso o medo: as palavras nunca são controláveis porque são umas vagabundas, vão com quem as lê, e obedecem: ou se arregaçam ou calam, com medo. Quem lê manda muito mais do que quem escreve)

A vontade de ter controle paralisava qualquer ação e a atividade escapava, rindo dele. Ele como uma pessoa dormindo que está sonhando e sabe que está sonhando. E quer acordar e não pode. O sonho tem mais controle. O sonho é o palco do que o controle não deixa sair. O medo vinha de sentir que não tinha a própria atividade sob controle.

(Mas quem lê sonha tanto quanto quem escreve. O que diferencia é o controle. Quem lê controla mais, quem lê é mais ativo. Não é? Quem escreve não está tentando controlar, quem escreve está apenas com medo. Será? Escreve quem sonha ou sonha quem lê? Qualquer interrogação é uma trégua. Escrevo, lês. Controle, medo. Uma putaria!)

Sua própria atividade era sonho, ele precisava não querer acordar. Para não ter medo. O despertar dele era o sono da cidade. Ele não queria dormir com a cidade, ele só podia acordar sozinho. Era parte da atividade. A atividade que ele não tem sob controle — daí vem o medo. Se ele soubesse medo de quê que ele tinha, se ele não estivesse apenas sonhando, e em sonho não se sabe, se sente, ele sente medo sem saber de quê: ele só sente que não tem sob controle a atividade.

(Solidão não é palavra. Não chamemos solidão de vagabunda que ela pode vir correndo deitar conosco. Solidão é extremamente acessível. Para não dizer intrínseca? Trégua)

Mas ele está se encontrando: é exatamente essa a atividade. E não se tem controle sobre encontrar-se. Ele acaba de abrir mão do controle e a atividade começa a fluir, sem ele saber. Ele está sentindo isso. Uma coisa que ele agora sabe: medo de quê que ele tinha. Medo de, sem a atividade sob controle, não poder sonhar o seu próprio sonho e ter que dormir com a cidade.

(A cidade em si é feita de palavras: televisão, bancas de jornais, jornais, televisão, publicidade, revistas, jornais, shopping centers, carros, contas, prédios, documentos, chaves de casa, outdoors, televisão, internet, banheiro feminino, banheiro masculino, informação, informação, informação, propaganda, semáforo, televisão — e algumas poucas outras mais, que também se repetem. A cidade é uma festa de vagabundas que se dão alto valor, vagabundas brasileiras e estrangeiras [as estrangeiras estão tomando conta da festa!]. Mas tem mais controle quem lê, então quem dá valor às vagabundas palavras de que é feita a cidade são os vivos-próprios, os concretos, os seres humanos, os autônomos. Que prezam tanto o controle, apenas lendo e refestelando-se nas vagabundas. As estrangeiras cobram cada vez mais caro, as estrangeiras ainda por cima cobram em dólares)

Não, ele vai ter que reconhecer o medo de outra forma ainda: medo de não poder oferecer um sonho seu à cidade. Ele, em relação à cidade, quer sair de dentro de si, sem dormir com ela. O sono da cidade é outro, a cidade sonha diferente, sonha concreto, com tijolos e carros. A cidade tem muito controle sobre as próprias atividades. Ele não dorme com a cidade, ele precisa perder o medo de não ter a própria atividade sob controle. Só assim poderá continuar sem ter controle sobre o sonho: controle sobre o sonho é dormir o sono da cidade. Controle sobre o sonho é analisar. Ele se sente tentado a analisar — mas quando ele analisa, a atividade naufraga.

(Não sei se estamos falando da mesma coisa. A cidade sonha ou solidão para respirar? Trégua. Sonhar como respirar? Trégua. Nem todas as palavras são palavras. Nada contra as vagabundas. O poder é de quem lê? Trégua)

Ele agora está aproveitando inclusive o medo para sonhar. Depois do encontrar-se, ele continuou perdido (sem qualquer tipo de controle), e a atividade se transformou então no que nunca tinha deixado de ser: nele.

(E há quem prefira escrever. Ver? Trégua. Quem acha que vê prefere a paz. E viva a euforia do medo, ainda que cada parênteses tenha sido um naufrágio)

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