A explicação assombrada
Vou contar aqui uma história onde o escritor não é capaz de avançar em enredo algum, porque ele se põe a desvendar as projeções que faz de si mesmo nas situações "ficcionais" que cria. Um escritor que não acredita em ficção, mas que se vê a si mesmo como uma cartola de dentro de onde tira mágicas cujos truques conhece muito bem... Um escritor analista do próprio leitor: quando este se identifica com alguma coisa que lê, quando sente que o livro está falando com ele, vem da mesma boca o desvelo do truque que o leitor nem sabia que dominava, e a mágica dele perde a graça, ele desilusiona porque se vê explicado, analisado e óbvio. E o desvelo dos próprios truques acaba por mostrar-se como uma diversão que não era a proposta inicial da arte, essa grande dama dos mistérios.
O leitor continua, curioso, fazendo-se cúmplice do escritor em devassar a dama, arrancar-lhe as vestes voaçantes. Ela reage num primeiro impulso de seu orgulho, mas vem uma bofetada e ela cala: ela é confiante o suficiente para resistir à humilhação advinda de covardia. O leitor já a essas alturas mais entusiasmado que o escritor, violando aquilo que ele mesmo tinha de velado e sensível (o sentimento nasce sem explicação), o leitor que já nem pode mais ser chamado de covarde, mas de masoquista, porque os tapas, os socos que dá são nele mesmo, na parte que ele agora xinga de tolice e sentimentalismo, porque ele acaba de esquecer como se faz para chamar isso de mistério.
Mas o escritor não esqueceu. O escritor vai escalarecendo ao leitor todos os seus truques (os truques dos dois, de mais, do mundo homem) até que não haja mais nenhuma mágica, até que o livro nas mãos do leitor seja um relato dele mesmo no divã que nunca visitou por preguiça, ou falta de paciência, ou de dinheiro, ou por medo, algum amor inconsciente a não conhecer-se de todo. E o leitor acha que o livro foi um dinheiro bem investido, e o escritor parece ter triunfado.
Mas à noite, em pesadelo, o escritor não dorme, assombrado pela imagem de uma mulher de quem ele não vê o rosto, coberto por um véu. Ele toca o véu e acorda sobressaltado antes de conseguir arrancá-lo.
Esta noite a dama visitará o leitor satisfeito.
O leitor continua, curioso, fazendo-se cúmplice do escritor em devassar a dama, arrancar-lhe as vestes voaçantes. Ela reage num primeiro impulso de seu orgulho, mas vem uma bofetada e ela cala: ela é confiante o suficiente para resistir à humilhação advinda de covardia. O leitor já a essas alturas mais entusiasmado que o escritor, violando aquilo que ele mesmo tinha de velado e sensível (o sentimento nasce sem explicação), o leitor que já nem pode mais ser chamado de covarde, mas de masoquista, porque os tapas, os socos que dá são nele mesmo, na parte que ele agora xinga de tolice e sentimentalismo, porque ele acaba de esquecer como se faz para chamar isso de mistério.
Mas o escritor não esqueceu. O escritor vai escalarecendo ao leitor todos os seus truques (os truques dos dois, de mais, do mundo homem) até que não haja mais nenhuma mágica, até que o livro nas mãos do leitor seja um relato dele mesmo no divã que nunca visitou por preguiça, ou falta de paciência, ou de dinheiro, ou por medo, algum amor inconsciente a não conhecer-se de todo. E o leitor acha que o livro foi um dinheiro bem investido, e o escritor parece ter triunfado.
Mas à noite, em pesadelo, o escritor não dorme, assombrado pela imagem de uma mulher de quem ele não vê o rosto, coberto por um véu. Ele toca o véu e acorda sobressaltado antes de conseguir arrancá-lo.
Esta noite a dama visitará o leitor satisfeito.


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